quarta-feira, 5 de abril de 2017

A arte de existir de madrugada


   Tenho um corpo cansado que carrega uma cabeça a mil.
   E assim se prolonga mais uma noite que, por vontade do cansaço, já podia ter terminado. Só que a cabeça não pára! E é nesta altura que a madrugada passa a ser uma de duas coisas: a melhor das conselheiras ou um enorme recreio para todos os meus fantasmas. Podia ser apenas o espaço temporal que utilizo para descansar, mas decide mascarar-se de psicóloga. Mesmo assim, sou apaixonado por ela. Para além de nos premiar com a inigualável beleza das estrelas, expõe o ser humano ao seu estado mais puro e obriga-o, perante a solidão e o silêncio, a pensar em tudo aquilo que fica perdido na correria do dia-a-dia que tanto desgasta o corpo que carregamos. É o mais perto que alguma vez poderemos estar de ser 100% genuínos, de reflectirmos sem as condicionantes de uma sociedade louca que nos preenche o dia com demasiada informação. Para quem a vive acordado, a madrugada é o brainstorming da vida. Tenho em mim todos os sonhos do Mundo, mas é de madrugada que penso se eles são concretizáveis ou não. Ela é o palco da maioria das decisões e o ponto de partida para o arranque e para o fim de muita coisa. Por muito que o esqueleto esteja cansado, desejo que a vida me proporcione algumas madrugadas em branco. Afinal de contas, é mais fácil lidar com um corpo cansado do que com uma mente perdida.

   Num efeito dominó, ou a manhã se vai tornar num grande momento de descanso ou serei um individuo totalmente perdido de sono.


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